“Afirma-se que as massas procuram na obra de arte distracao, enquanto o conhecedor a aborda com recolhimento. (…) quem se recolhe diante de uma obra de arte mergulha dentro dela e nela se dissolve (…)”
Walter Benjamin (1936) em seu texto ‘A obra de arte na era da sua reprodutibilidade tecnica’ versa dialeticamente sobre os varios aspectos pelos quais a tecnologia modificou a concepcao de arte e de criacao artistica, incluindo a perspectiva de criacao coletiva no cinema e na fotografia.
Mas um aparte singular desse texto tao ‘antigo’ me chamou a atencao, quando o autor trata da relacao entre diversao e recolhimento.
(…)” a massa distraida, pelo contrario, faz a obra de arte mergulhar em si, envolve-a com o ritmo de suas vagas, absorve-a em seu fluxo. O exemplo mais evidente e a arquitetura. Desde o inicio, a arquitetura foi o prototipo de uma obra de arte cuja recepcao se da coletivamente, segundo o criterio da dispersao.” (BENJAMIN, 1994:192-193).
Engana-se quem, ao ler esse trecho do artigo de Benjamin, destile, a primeira vista, um juizo de valor para uma postura que se deve ter diante da obra de arte. Como se a atitude de recolhimento nos desse mais prestigio que a de distracao. Ou que fosse a mais correta.
Ao contrario, eh na perspectiva de distracao, do coletivo das massas, que Benjamin ira colocar a atuacao mais prestigiosa da obra da arte, sendo essa forma de prestigio uma novidade da modernidade. Eh na variedade e na distracao que encontramos formas de comportamento social.
Entretanto, proposta dialetica, em qualquer campo do conhecimento, transformou-se em algo restrito para fazer parte da construcao de um olhar sobre o que se que se nos apresente como interessante.
Nobreza x burguesia, recolhimento x distracao. Esse yin e yang estao sujeitos a interferencias do caos. Construir divagacoes atraves de uma triade seria um bom inicio de conversa.
Hoje, questoes dialeticas nao dao conta da diversidade, a respeito do assunto eh sintomatico o processo de criacao artistica atraves de formas hibridas de expressao (danca + teatro + instalacoes + conversa com o autor).
E atraves da convergencia de multiplos meios e tecnicas que emerge a forma de distracao em galerias e espacos culturais. Uma forma que necessita englobar varias para transtornar inspiracao e atencao.
Fonte da citacao: BENJAMIN, Walter. (1994) Magia, tecnica, arte e politica. Trad. Sergio Paulo Rouanet. 7a ed. Sao Paulo: Brasiliense.
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